Alan Turing: do Enigma ao computador
As conclusões que Alan Turing chegou a respeito das noções matemáticas centrais da computabilidade e dos números computáveis foram publicadas no artigo “On computable numbers, with an application to the Entscheidungsproblem”. Lançado em 1937, o artigo de Turing era revolucionário, mas poucos conseguiram perceber isso. Atualmente, a máquina proposta por Turing é reconhecida como o protótipo do computador digital eletrônico.
Na época da publicação do artigo, o “pai” do computador estava fazendo doutorado em Princeton, nos EUA. Ali ele circulava entre os deuses da ciência, como
Albert Einstein, Kurt Gödel, “Johnny” von Neumann, entre outros. O matemático austro-húngaro von Neumann foi quem viu no trabalho de Turing uma façanha que tinha criado um ramo de conhecimento inteiramente novo. Para Neumann, o passo seguinte era construir a máquina de Turing.
Quando eclodiu a Segunda Guerra Mundial, Turing foi encarregado de comandar uma equipe de decifração de códigos, dentro de um projeto ultrassecreto. Refratário à disciplina militar, com uma conduta social desconcertante e parecendo não levar a sério o que estava fazendo, Turing teria um papel crucial na revelação do
Enigma, o indecifrável código de comunicação entre as tropas alemãs. A tarefa dele era gigantesca.
Para decifrar as mensagens, Turing e sua equipe construíram uma máquina eletromagnética que percorria em alta velocidade as imagens com o código Enigma em busca de quaisquer regularidades, traços recorrentes ou combinações que pudessem ser decifradas. Essa máquina foi chamada de Colossus e começou a operar em dezembro de 1943. Ela foi considerada a percussora do computador digital eletromagnético. Seus cinco processadores tinham capacidade para escanear 25 mil caracteres por segundo. Graças a essa máquina conseguiu-se decodificar todas as comunicações alemãs.
O trabalho bem-sucedido de Turing com a Colossus o fez aprofundar seus conhecimentos sobre mecanismos eletrônicos e refletir sobre como deveria fazer para as máquinas imitarem a mente humana. Após a guerra, Turing começou a trabalhar no National Physical Laboratory, próximo a Londres. Lá encabeçou o projeto de construção de uma máquina automática de computação. Após, voltou para Cambridge onde desenvolveu sua ideia de que as máquinas podiam aprender. Um ano após chegar a Cambridge, mudou-se para a Universidade de Manchester para assumir o cargo de vice-diretor do laboratório de computação, onde estava sendo construída a Manchester Automatic Digital Machine (MADAM), o primeiro computador eletrônico com programas armazenados. O trabalho com a MADAM levou Turing a expor suas ideias sobre a inteligência artificial em artigos como “Computing machinery and intelligence”, publicado em 1950.
Enquanto desenvolvia seu trabalho teórico, agora estendendo-se também à morfogênese, Turing foi eleito para a Royal Society. Nessa época ele mantinha um comportamento de, após longas jornadas de trabalho, procurar jovens homossexuais para acompanhá-lo em suas solitárias noites. Numa dessas ocasiões um incidente fez sua homossexualidade vir a público através da imprensa. Em tempos em que ser homossexual era crime e doença na Inglaterra, para escapar da prisão ele concordou em submeter-se a um tratamento hormonal que iria “curá-lo”. O tratamento o deixou impotente e a excepcional forma física que tinha mantido como atleta corredor foi se embora. Com a identidade sexual comprometida e sem perspectivas mais atraentes em suas pesquisas, Alan Turing se suicidou em 7 de junho de 1954, ingerindo uma maçã com cianeto.