A O’Reilly Media e a MediaLive International promoveram uma série de conferências sobre a Web 2.0 depois da reunião. O termo se popularizou e passou a ser usado indiscriminadamente como sinônimo de inovação, levando O’Reilly a publicar um longo artigo (5 páginas) em seu site explicando o que eles realmente quiseram dizer com Web 2.0. O artigo termina com uma lista de 8 itens que definiam o quanto uma companhia estava ou não inserida no contexto. Dois anos depois, em 2006, ele publicou um novo artigo reforçando alguns pontos.
Essas regras são valiosíssimas para entender como funciona a internet nesse novo contexto. Confira quais são e o que significam as regras:
1. A Teoria da Cauda Longa
Web 2.0 desafia o senso popular de que a maioria dita as regras: as minorias são maioria. A teoria da Cauda Longa foi criada por Chris Anderson, editor chefe da revista de tecnologia Wired, através da análise das vendas da varejista online Amazon.com. Grande parte da renda da empresa vinha da venda de pequenos volumes de itens raros a muitos consumidores em vez de altas vendas de meia dúzia de artigos populares.
Segundo Anderson, a idéia de faturar milhões com os campeões de vendas é passado; o futuro do entretenimento está nos milhões de pequenos nichos da ponta final do ranking. O nome Cauda Longa (do inglês Long Tail) vem da imagem do gráfico de itens mais vendidos que mostra como o total de pequenas vendas é maior que o das grandes.
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Esse fenômeno é típico da internet. Para um estabelecimento físico, o custo de manter nas prateleiras poucos volumes de muitos livros com baixa vendagem é muito alto, a ponto de fazer com que isso não valha a pena. Porém, para as prateleiras virtuais de um site de varejo, como a Amazon.com, o custo é ínfimo e é o mesmo que o de manter livros super vendidos, o que permite que ofereça uma infinidade de títulos pouco vendidos.
Outros sites que se deram bem explorando a Cauda Longa são a Apple, com sua loja de música virtual iTunes (que é um software gratuito), eBay (leilão online), Yahoo! Launch (clipes musicais) e Submarino (varejista online brasileiro).
2. Dados são o próximo Intel Inside
A segunda geração da internet é movida a dados. Sem dados, é como um computador sem processador interno: simplesmente não funciona. Para ser relevante nesse contexto, um serviço deve contar com uma boa base de dados.
Assim como computadores de diversas marcas usavam o mesmo processador (e usavam o selo “Intel Inside” na máquina para identificar o componente), diversos programas podem usar o mesmo banco de dados e agregar valor a eles, explica Gilberto Alves Junior, designer de interfaces que mantém um blog sobre a Web 2.0 (o Prática).
Um exemplo são os serviços de localização de endereços ou de previsão do tempo. A fonte dos mapas para sites como Google Maps, Maplink e Apontador são as mesmas, mas cada site usa os dados de uma maneira própria, segundo Gilberto Junior. Eles combinam com seus dados sobre serviços na região, nomes de ruas, itinerários de ônibus e imprimem sua cara ao serviço. Lucra nessa história a empresa que vende seus dados (no caso, os mapas), a que os usa (sites de localização) e os que reutilizam (como os blogs).
Outro tipo de fonte de dados é o conteúdo gerado pelo usuário (CGU). Alguns dos sites movidos a CGU são os de compartilhamento de conteúdo (YouTube, Flickr, Wikipédia) e informações (jornais colaborativos como OhMyNews ou de agrupamento de notícias como o Digg), blogs e redes de relacionamento (MySpace, Facebook, Orkut). Entre exemplos de sites que utilizam outros tipos de dados são os de comparação de preços (como o Buscapé e o JáCotei).
3. Usuários agregam valor
A chave para a vantagem competitiva em aplicativos para internet é permitir que os usuários complementem dados já disponíveis com seus próprios. Assim, a “arquitetura de participação” vai além do desenvolvimento de software, com usuários envolvidos de forma a criar conteúdo na plataforma, assim como na divulgação desta.
4. Efeitos de rede por padrão
![]() Reprodução Last.fm |
5. Alguns Direitos Reservados
Muitas restrições em relação às leis de direitos autorais e proteção de propriedade intelectual (“todos os direitos reservados”) impedem que as pessoas abracem uma idéia em massa e que a empresa por trás dela aproveite os benefícios da colaboração coletiva. A sugestão de O’Reilly: desenvolver soluções que possam ser mudadas pelos usuários e com licenças flexíveis e pouco restritivas, como as sugeridas pelo Creative Commons.
![]() Creative Commons |
6. O Beta perpétuo
O termo “beta” é usado na informática para designar programas em teste, que não chegaram ainda à sua versão final. Essa é a idéia da Web 2.0: os programas estão sempre em desenvolvimento, evoluindo com a colaboração e o feedback dos usuários, que fazem o papel de testadores. Atualizações são feitas regularmente e não há grandes lançamentos, como no mercado de software.
7. Cooperação, não controle
Dados e serviços ficam disponíveis para que outros possam reutilizá-los e fazer alterações. A Web 2.0 é feita de cooperação. Serviços são oferecidos em forma de peças soltas, que podem ser usadas em conjunto com outras. Um usuário pode ter em seu blog previsão do tempo, propagandas, serviço de localização e as últimas notícias de seu jornal favorito. Cada um desses serviços é fornecido por um site diferente, porém todos são integrados em um só lugar (isso se chama “mash up”, do inglês, “misturar”).
8. Software além do computador
Outra característica da Web 2.0 é que a internet ultrapassou os limites do computador – e os programas também. Aplicações que funcionam bem em aparelhos como celulares, PDAs (computadores de mão), GPS (Sistema de Posicionamento Global) e outros eletrônicos com acesso à internet têm maiores chances de se tornarem mais populares.
No segundo artigo, O’Reilly repetiu os conceitos dessas 8 regras e citou apenas mais uma:
9. Vantagem competitiva
Em ambientes de rede, as APIs (interfaces de programação de aplicativos) abertas e protocolos padronizados são mais populares, mas não acabam com a lei da vantagem competitiva.
O’Reilly cita a Lei da Conservação de Lucros Atrativos, de Clayton Christensen. Ela diz o seguinte: quando os lucros atrativos (acima da média do mercado) desaparecem em um estágio da cadeia de valor, por um produto ter se tornado modular e comoditizado (vulgo carne-de-vaca), a oportunidade de ter lucros mais atrativos com produtos proprietários (fechados) vai emergir, geralmente, em um estágio adjacente àquele onde os lucros desapareceram.
O que isso quer dizer? Sempre que todo mundo estiver oferecendo a mesma coisa (e ninguém lucrando acima da média), a tendência é alguém lançar uma solução inovadora e alcançar um lucro maior. Todos recriarão essa novidade e ela se tornará padrão. Aí, outro aparecerá com mais uma inovação e sempre haverá essa intercalação entre nivelação e sobressalência. Foi assim com os navegadores de internet Netscape Navigator e Internet Explorer e com os buscadores AltaVista, Yahoo! e Google.