Os conflitos na Web 2.0

Blogosfera x mídia

Os blogs, que começaram como páginas pessoais em formato de diário, foram ficando cada vez mais temáticos e adquirindo uma cara mais jornalística, ainda que cheia da opinião. Pessoas entendidas de diversas áreas (seja por profissão, seja por vivência) oferecem nos blogs versões próprias dos fatos do dia a dia.

Na “blogosfera” existe um clima de aversão à chamada mídia tradicional, chamada de “velha mídia”. Contrários à forma “engessada” como as notícias são dadas na imprensa, os blogueiros defendem um modelo horizontal, em que várias pessoas dão suas versões, oferecem opiniões independentes e complementam as informações umas das outras.

No evento Campus Party 2008, que reuniu cerca de 3.000 participantes amantes de tecnologia e internet em São Paulo, um participante se vestiu de dinossauro e posou para fotos na sala de imprensa, que tinha colados nas paredes avisos como “Velociredator”, “Matéria polida” e “Não alimente os fósseis”.

Campus Party 2008
Fernando Mafra/Creative Commons
Cartaz colocado na sala de imprensa do Campus Party
­­ indica que os jornalistas são os dinossauros da informação

A estratégia de alguns dos rivais (da imprensa) é atacar a credibilidade: como confiar numa notícia dada por um “desconhecido” e não por um jornal sério e tradicional? Ou em um site wiki, que qualquer pessoa pode editar (sem que se garanta se a informação é correta ou não)? Em 2007, uma peça publicitária do jornal Estado de S. Paulo irritou os blogueiros brasileiros ao insinuar que os blogs eram escritos por charlatões e que não eram dignos de confiança. A propaganda (veiculada na TV e em mídia impressa) foi entendida como preocupação em reforçar sua credibilidade para não perder audiência. Pouco depois, o jornal lançou um projeto ligado à Web 2.0 (o site Limão), movido à colaboração.

Reprodução campanha do Estadão sobre credibilidade dos blogs
Reprodução/Blog Brainstorm#9
Peça de campanha publicitária do jornal "O Estado de S.Paulo" veiculada em agosto de 2007, questionando a credibilidade de informações em blogs


Por outro lado, o concorrente Folha de S. Paulo tem uma abordagem diferente em relação à blogosfera (apesar de também não manter relações amigáveis com blogueiros): alguns de seus jornalistas, colunistas e até políticos mantêm blogs hospedados no site do jornal, onde têm liberdade maior para expressar suas idéias.

Indústria fonográfica x internauta

A indústria fonográfica foi a mais atingida pela internet no mercado cultural. As músicas digitais, mais portáteis que as gravadas em CDs, são também mais fáceis de ser compartilhadas. Desde a Web 1.0, a intensa troca de canções pela rede já abala as vendas de CDs.

Isso porque milhões de internautas ao redor do planeta baixam música pela internet a partir de sites independentes sem pagar um centavo a artistas, lojas ou gravadoras. Apesar de ser em tese ilegal por ferir direitos autorais (a não ser que os autores autorizem), a troca gratuita de arquivos pela internet é uma tendência consolidada.

Música digital em números

A briga entre a indústria fonográfica e os usuários que baixam músicas gratuitamente não tem previsão para acabar. Até porque, não há consenso sobre o real efeito do compartilhamento de arquivos pela web nas vendas de CDs.

Há números defendendo os dois lados da história. As gravadoras dizem que cerca de 20 bilhões de músicas foram baixadas gratuitamente e sem permissão dos autores em 2005 nos EUA, Alemanha, Reino Unido e Brasil, entre outros países (dados da International Federation of the Phonographic Industry - Federação Internacional da Indústria Fonográfica - IFPI).

Entre 1999, quando foi lançado o Napster (primeiro software de compartilhamento de música P2P), e 2003, a troca de músicas pela internet nos EUA entre, fez cair a venda de CDs por lá em 13%, segundo pesquisa de Norbert J. Michel, da Nicholls State University de 2006.

Já no Brasil, o mercado de CDs e DVDs teria alcançado mais que o triplo do faturamento de R$ 615 milhões de 2005 (chegando aos R$ 2 bilhões) se todos os downloads de música no país tivesse sido pagos, sugere uma pesquisa da Ipsos Insisght encomendada pela Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD).

Mas isso é uma estimativa – alguns defendem que as pessoas que baixam música da internet não pretendiam comprar CDs, de forma que os downloads não as fizeram desistir da compra e não causaram prejuízo à indústria fonográfica. É o que sugerem os pesquisadores Felix Oberholzer, da Harvard Business School, e KolemanStrumpf, da UNC Chapel Hill, de março de 2004.

Os dois analisaram e cruzaram dados de downloads (0,01% de todos os arquivos baixados ao redor do mundo naquele intervalo) e as vendas de álbuns durante 17 semanas. Eles concluíram que seriam necessários 5 mil downloads para que as vendas de CD caíssem 1 unidade enquanto, em determinado momento da pesquisa, os números sugeriram que as vendas de álbuns subiram em 1 unidade a cada 150 downloads. Outra conclusão é que o compartilhamento de arquivos permite que usuários ouçam músicas a que não teriam acesso de outra forma, o que poderia elevar as vendas.


A principal arma no combate à pirataria digital são as tecnologias contra cópias digitais (DRM, sigla em inglês para gestão de direitos digitais), porém trata-se de uma estratégia muito ineficiente, já que hackers conseguem “quebrar” essas proteções em pouco tempo.

O que pode ser uma ameaça para grandes ba­ndas e gravadoras pode também ser uma ótima oportunidade para grupos menores e aspirantes à fama graças ao marketing viral que a livre circulação de músicas na internet pode promover.

O grupo Artic Monkeys é um exemplo. Em 2003, os fãs da pequena banda inglesa disponibilizaram suas canções na rede. O público gostou, as músicas circularam e, em 2004, a banda ganhou projeção primeiro na Inglaterra e depois em todo mundo, sendo alçada ao nível das bandas de sucesso.

Um marco do que pode ser uma nova fase da indústria fonográfica foi o dia 1º de outubro de 2007, quando a banda de inglesa Radiohead disponibilizou em seu site todas as músicas de seu novo álbum para download gratuitamente, sendo que os fãs tinham também a opção de pagar pelas canções se assim desejassem. As músicas ficaram disponíveis para download durante cerca de dois meses, até 12 de dezembro, quando o álbum foi lançado à maneira tradicional nas lojas de discos.

Uma pesquisa divulgada em novembro do mesmo ano mostrou que 38% dos internautas que baixaram o álbum “In Rainbows” da página da banda pagaram pelo conteúdo. Se para alguns foram “apenas” 38%, para outros o número é um sucesso. A decisão da banda foi considerada arriscada e o resultado, atribuído ao fato de que o Radiohead, que conta com mais de vinte anos de estrada, tem um público consolidado.

Google x Microsoft

A rixa entre o Google e a Microsoft pode ser considerada um conflito da Web 2.0 por contrapor uma empresa solidamente construída sobre a venda de software proprietário e outra com modelo de negócios completamente baseada nos princípios da segunda geração da internet.

A Microsoft reina absoluta no mundo do software, desde que lançou seus primeiros sistemas operacionais na segunda metade da década de 70. Estatísticas da Net Applications de janeiro de 2008 mostram que a MS detém uma parcela de 91,46% do mercado de sistemas operacionais, com o Windows, e 75% do de navegadores, com o Internet Explorer.

No mercado da internet, porém, a empresa de Bill Gates foi passada para trás pelo Google. Enquanto a companhia de Larry Page e Sergei Brin tem um marketshare de 78% do mercado de ferramentas de busca na web, a MS tem uma parcela de menos de 7% com seu Microsoft Live Search e com o buscador do site MSN.

Além disso, o Google domina o mercado de anúncios online. A supremacia começou em 2005, com uma parceria com a AOL para publicidade, e em 2007, quando a empresa comprou a DoubleClick, líder do segmento até então. Outras conquistas do Google foram parcelas dos segmentos de serviço de e-mail (que estava saturado em 2004, quando surgiu o Gmail, oferecendo mais espaço de armazenamento) e de mensageiros instantâneos com seu Gtalk, lançado em 2005.

Em 2006, a gota d’água: o Google lançou o Google Apps, um pacote de softwares online e gratuitos semelhante ao pacote Office da MS, com software de edição de texto, apresentação de slides e planilhas. O Apps ainda não tem um impacto significativo na área de aplicações para escritório, mas está evoluindo e é definitivamente uma pedra no sapato da MS.

Mas a MS não está parada vendo a concorrente dominar a internet e avançar em seu território. Em 2007, ela fechou parceria com o Facebook, uma das redes sociais mais populares nos EUA, aumentando sua presença online. Em 2008, tentou comprar o Yahoo, terceira colocada em audiência no mundo (segundo dados da consultoria Comscore, em dezembro de 2007 o Google teve 815 milhões de visitantes únicos, a MS, 587 milhões e a Yahoo, 484,6 milhões). O Yahoo! recusou a oferta. Se fosse bem sucedido, o negócio poderia ter elevado a empresa a concorrer cara a cara com o Google em buscas e publicidade online.

Entusiastas x críticos

O time de entusiastas da Web 2.0 é composto por usuários adeptos de blogs e ferramentas de interação, programadores que defendem o código aberto, empresas de internet e anunciantes.

Do outro lado do ringue estão os que acreditam que a Web 2.0 não passa de uma jogada de marketing. Eles alegam que o que O’Reilly chama de Web 2.0 não é nada mais que o desenrolar natural de tudo aquilo que a internet já permite desde suas primeiras evoluções, como a interatividade, e que as empresas usam o termo indiscriminadamente na tentativa de parecerem modernas e inovadoras.

Um dos nomes mais famosos é o de Pierre Lévy, filósofo e grande pensador da era digital, autor do conceito de inteligência coletiva ainda nos primórdios da internet (que previa a construção de conhecimento de forma colaborativa e conjunta).

Em uma palestra dada no Brasil em 2007, Lévy afirmou que, atualmente, muito mais pessoas estão se apropriando da tecnologia da internet e a aproveitando com cada vez menos necessidade de intermediários e técnicos. Isso, porém, disse ele, não significa uma diferença conceitual radical em relação à Web 1.0.